A globalização econômico-social contribui, no contexto histórico
a que estamos inseridos atualmente, como elemento dificultador de
uma possível , desejável e equitativa melhoria na qualidade de vida
do ser humano.
Dentre os diversos problemas que afetam a vida humana hoje, a
educação vem ocupando cada vez mais espaço nas rodas de discussões
e nos meios de comunicação.
Com efeito, a questão educacional transcendeu os limites
anteriormente estabelecidos e hoje tornou-se uma preocupação
permanente permeando diversas áreas do conhecimento e atingindo o
público leigo, antes tão desinteressado e pouco ou completamente
desinformado. A preocupação com os rumos da educação como forma de
contribuir para a minimização da problemática humana e da
conseqüente e desejável reestruturação da sociedade pode ser
evidenciada em diferentes fóruns nos quais o assunto vem sendo
discutido pela : encontros, debates, seminários, congressos
científicos e outros.
Mas de que educação estaríamos falando? Que princípios filosóficos
fundamentariam essa educação? Mesmo nos dias de hoje, programas
educacionais abstratos, vinculados à idéia de que é possível
transformar a sociedade só por meio da educação -que seria capaz de
minimizar as diferenças econômico-sociais entre os indivíduos,
homogeneizando assim as relações sociais – oriundos do
pensamento de DURKHEIM (1955) e PARSONS (1964), são largamente
difundidos nos meios educacionais e na sociedade em geral.Fato é
que, em que pesem as críticas – comuns até mesmo dentro dos
meios educacionais – ninguém escapa da educação!
A educação ocorre mediando todas as relações sociais (BRANDÃO,
1981).Por expressar sempre uma doutrina pedagógica baseada em
alguma filosofia de vida, em uma determinada concepção de ser
humano e de sociedade, ela não se dá de uma única forma. Assim como
não há um único local para exercê-la. A educação se dá na escola,
na igreja, na rua, no trabalho, no botequim da esquina, enfim, no
cotidiano do ser humano.É importante também enfatizar outro aspecto
fundamental: além de sua função social, a educação tem uma
significação política.
E é justamente nesse aspecto da educação que consiste a importância
do legado do pensamento de Gramsci. Segundo FREITAG (1978), autores
como Gramsci imprimem à educação uma conotação política, na medida
em que, no processo educacional, o indivíduo é habilitado a atuar
no contexto social em que vive, não simplesmente reproduzindo as
experiências anteriores, transmitidas pelas gerações que o
antecederam, mas também somando a essas experiências sua análise e
avaliação crítica, por meio das quais ele se torna capaz de
organizar e reestruturar a sociedade.
A educação é um ato político, na medida em que transmite modelos
que prevalecem em uma sociedade: modelos de vida, modelos de
trabalho, de relacionamento e de condutas. Por serem modelos de
grupos sociais influentes, esses modelos têm significação política,
uma vez que a política exprime relações de força até entre ideais
opostos. As idéias políticas sobre a sociedade, a justiça, a
liberdade, a igualdade, por exemplo, impregnam os modelos.
Nesse
sentido, para Gramsci, a educação é uma educação social e deve ser
uma reflexão permanente sobre modelos sociais e sobre a organização
social; assim toda teoria da educação deve, necessariamente,
ordenar-se a um projeto de sociedade.
GRAMSCI (1984) conceitua de “ideologia” as idéias
hegemônicas que circulam na sociedade e que legitimam um conjunto
de valores, os quais, em última instância, refletem as divisões e
as lutas sociais e as relações de força da sociedade. Apesar de não
ser um teórico explícito da educação, é Gramsci quem fornecerá os
elementos para pensarmos uma teoria dialética da educação, na
medida em que propõe uma revisão do conceito marxista de
Estado.
Se, em Marx, o Estado detinha a exclusividade da coerção e da
violência, em Gramsci isso será subdividido em duas esferas: a
sociedade política, na qual se concentra o poder repressivo da
classe dirigente (governo, tribunais, exército, polícia), e a
sociedade civil, constituída pelas associações privadas (igrejas,
escola, sindicatos, clubes, meios de comunicação), nas quais
circulam as ideologias que funcionam como “cimento” da
formação social, e por meio das quais a classe hegemônica procura
impor à classe subalterna a sua concepção de mundo.
Para Gramsci, a sociedade civil expressa o momento da persuasão e
do consenso que, junto com o momento da repressão e da violência
(sociedade política) asseguram a manutenção da estrutura de poder
(Estado). Na sociedade civil, essa dominação se expressa sob a
forma de hegemonia. Essas perspectivas indicam a natureza
contraditória da educação, explicitada por Gramsci, que é, ao mesmo
tempo um instrumento estratégico de dominação nas mãos da classe
dominante, e também um instrumento estratégico de libertação por
parte da classe dominada, uma vez que, mediante seus intelectuais
orgânicos, ela pode lançar no âmbito da sociedade civil sua
contra-ideologia.
Gramsci será o pensador que atribuirá à escola e à educação o papel
de uma dupla função estratégica: a de conservar e, ao mesmo tempo,
minar as estruturas do modelo social e econômico. Para ele,
“toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação
pedagógica”, na medida em que a contra-ideologia pode
apoderar-se da educação hegemônica, corroendo-a, destruindo-a e
reorganizando-a numa nova educação, que por sua vez divulgará uma
nova concepção de mundo.De acordo com o legado do pensamento de
Gramsci, entende-se que o educador tenha um papel
político-pedagógico transformador: sua atividade não é neutra, já
que seu trabalho está voltado para os grupos dominados. Esses
pressupostos orientam uma prática educativa que privilegia o
diálogo, os encaminhamentos conjuntos na solução de problemas e,
sobretudo, na construção de saber coletivo. O educando torna-se
sujeito, exatamente pela possibilidade de criar e recriar o
conhecimento e intervir na realidade, modificando-a.
Gramsci irá também influenciar decisivamente toda a pedagogia
crítica desenvolvida por Paulo Freire, em fins dos anos 1960, e
também a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, por meio de seus
representantes mais significativos, como Horkheimer, Marcuse,
Adorno e, principalmente, Habermas (AYUSTE, 1997).
Em oposição ao projeto pedagógico iluminista, caracterizado pela
exaltação do novo e do culto à razão e à verdade objetiva, a
pedagogia crítica, sob a influência de Gramsci propõe a libertação
dos indivíduos e a luta contra as desigualdades sociais a partir da
crítica ao desenvolvimento selvagem do capitalismo, à sociedade de
consumo e à colonização cultural.
Fred Fernandes
Bibliografia
AYUSTE A. A pedagogia crítica e a modernidade. Pátio –
Revista Pedagógica, Porto Alegre, Editora Artes Médicas Sul, ano I,
no 2 Agosto/Outubro, 1997.
BRANDÃO CR. O que é a educação. São Paulo: Brasiliense. Colecção
Primeiros Passos, 1981.
DURKHEIM, E. Educação e Sociologia, 4a. Ed. Melhoramentos,
1955.FREITAG B. Escola, Estado e Sociedade. São Paulo: Edart,
1978.
GRAMSCI A. Maquiavel, a política e o estado moderno. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1984.
GRAMSCI A. Os intelectuais e a organização da Cultura, Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.
GRAMSCI A. A concepção dialéctica da história. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1968.17
PARSONS T. The Social System. Glencoe, The Free Press,
1964.






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